quarta-feira, 25 de agosto de 2010

cristãos e politica

Estamos num ano eleitoral. Não deveríamos esperar a bola parar na África do Sul para começarmos a falar das eleições gerais no Brasil. Não consigo identificar o motivo, mas é fato que existe um estranho silêncio entre nós batistas quando o tema é a política. Quero propor algumas ideias para estimular o debate sobre a participação política dos evangélicos no Brasil.


Para isto, usarei a delimitação temporal com que Paul Freston trabalha em “Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment” e que o levou a se deparar com as reações à presença das igrejas evangélicas na cena política da Nova República. Ele constatou que os evangélicos figuravam como “novos atores” na “Nova República”. Mas, qual a imagem veiculada dos evangélicos naquele momento de efervescência política? Segundo Freston, esses novos atores figuravam como fanáticos, fisiológicos e fundamentalistas.

O autor citado toma o cuidado de definir os termos. Sabendo o quanto o protestantismo é multifacetado, e o quanto é confuso mobilizar termos amplos como “evangélicos”, “pentecostais” e “denominacionalismo”, dedicou-se a mapear o protestantismo brasileiro em termos das diferentes igrejas que compõem o grupo. A implicação política dessa distinção é que os evangélicos compõem um tipo de mosaico social. Os grupos denominacionais têm posturas eclesiásticas e políticas próprias.

Freston descreve o protestantismo pentecostal. Neste contexto ele se refere a três ondas do pentecostalismo brasileiro. Faz uso da perspectiva histórica. A classificação das igrejas pentecostais obedece ao critério temporal, quando foram implantadas e de que forma se firmaram no Brasil.

O autor em questão apresenta quadros referentes à participação de deputados federais e senadores da legislatura de 1946-1951 à legislatura de 1983-1987 e constata que se tratou de uma presença pluripartidária que cobria um amplo lastro de ideias e pertencimentos sociais. Numericamente, a presença protestante nesse período foi caracterizada como discreta e estável. Porém, houve uma significativa mudança em termos numéricos bem como da trajetória dos deputados e senadores eleitos identificados como protestantes.


A mudança perceptível se deu na legislatura de 1987-1991, quando a representação protestante avançou para 36. Na legislatura anterior, entre senadores e deputados federais que atuaram, o número era de 17 representantes, majoritariamente ligados às igrejas do protestantismo histórico. Freston atribui a mudança significativa do quadro à imersão pentecostal. Ele chama esse processo de “irrupção pentecostal na política”. O fato é que, se antes os pentecostais se mantinham longe da representação política, na legislatura de 1987-1991 lançam candidatos oficiais da igreja. A partir de então, a presença dos protestantes no parlamento deixou de ser discreta, muito menos estável.
A politização pentecostal pode ser lida como a história da politização da Igreja Assembleia de Deus, da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja do Evangelho Quadrangular. Essas três igrejas assumiram candidaturas oficiais e desenvolveram, cada uma a seu modo, mecanismos de interlocução com a política partidária e eleitoral. Porém, é fundamental perceber em que contexto a “conversão” dessas igrejas à ação política direta se deu: A Assembleia Nacional Constituinte. A ideia força desta tese é de que a Constituinte foi o estopim para a politização pentecostal. Foi justamente a irrupção pentecostal na política que inaugurou novas formas de se chegar ao parlamento tendo nas igrejas evangélicas a base eleitoral. Decorreram deste fato mudanças significativas no campo religioso brasileiro quanto à relação com a política.

Para todos os efeitos, a bancada evangélica não se distinguia pelo fisiologismo ou por um corte ideológico bem definido. Duas subcomissões mereceram atenção especial da bancada heterogênea chamada de evangélica: “Subcomissão da Família, do Menor e do Idoso” e “Subcomissão da Ciência, Tecnologia e Comunicação”. Portanto, ficava justificada para as “bases” a atuação de deputados que hasteavam bandeiras religiosas em pleno parlamento. Merece ser lembrado que na Constituinte a Subcomissão da Família se ocupou de questões como o do aborto, homossexualismo, divórcio e censura.

A leitura da tese de Paul Freston deixa claro que a identidade religiosa foi reclamada a princípio pelos próprios membros da bancada evangélica. Alguns parlamentares evangélicos quiseram compor acordos para aumentar a força política de cada um que ia além das formações partidárias ou perspectivas estaduais. A mídia não teria inaugurado a identidade religiosa das igrejas evangélicas em pleno espaço da constituinte. Tendo se deparado com tal fato jornalístico, a mídia deu um tratamento ao grupo que ia da denúncia ao deboche. Então, a noção de bancada evangélica ganhou um peso pejorativo como fruto do erro político crasso cometido pelos constituintes evangélicos: A indiscrição

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